Qual o papel das mudanças individuais na preservação ambiental

A crise climática já está acontecendo, com recordes de calor global, perda de gelo e aumento do nível do mar na última década. Com isso, é natural que quem se conscientiza do assunto procure tomar ações. Só que as ações individuais não vão resolver o problema. Isso quer dizer que ninguém vai salvar o mundo ao tomar banhos mais curtos ou andar com seus próprios talheres e canudos. Para isso seria necessária uma mudança estrutural envolvendo as grandes indústrias. Mas o que uma pessoa pode fazer tem algum valor?

De acordo com o psicólogo social alemão Herald Welzer, que estuda os impactos sociais da mudança climática, estratégias individuais contra a mudança climática têm uma função essencialmente sedativa. Porém, ele explica que, enquanto as políticas internacionais oferecem perspectivas de mudança no longo prazo, as mudanças individuais e coletivas têm o papel de mudar culturas: “Sobra à ação cultural o nível intermediário, o nível da própria sociedade e a questão democrática de como as pessoas querem viver no futuro”, disse Welzer.

No livro “A riqueza de poucos beneficia a todos nós?” Zigmunt Bauman cita Welzer para demonstrar que a mudança climática está associada com a nossa decisão coletiva de buscar a felicidade por meio do consumo crescente.

Isso quer dizer que é preciso repensar e revisar radicalmente o modo como vivemos, já que o capitalismo global não levará a soluções. O raciocínio é explicado usando uma citação de Welzer:

“O que é necessário, sobretudo em tempos de crise, é desenvolver visões ou pelo menos ideias que nunca foram pensadas antes. Elas podem todas parecer ingênuas, mas não é o caso. Além disso, o que seria mais ingênuo do que imaginar que o trem portador da destruição em escala maciça vai mudar sua velocidade e seu curso se as pessoas dentro dele correrem na direção oposta? Como disse Albert Einstein, problemas não podem ser resolvidos com o modelo de pensamento que levou a eles. É necessário mudar o curso, e para isso o trem primeiro deve parar.”

É possível, dentro do capitalismo, contornar a mediação do mercado na forma como consumimos? Bauman menciona como exemplo positivo o movimento Slow Food, uma alternativa ao fast-food, criado na Itália. O Slow Food incentiva a preservação da cozinha tradicional e regional e o respeito aos ecossistemas locais. No Brasil, a Bela Gil é uma das propagadoras do Slow Food e da autonomia alimentar.

O Slow Food não resolve a questão das pessoas que têm pouco tempo para cozinhar por conta de uma rotina estressante e pesada de trabalho, e que contam com alimentos baratos e práticos na seção de congelados. Para isso é preciso de rotinas de trabalho mais justas e direitos trabalhistas. Mas, enquanto a indústria cria uma “solução” imediata para esse problema, é importante poder parar e questionar por que as pessoas precisam de comida congelada e se essa é a sociedade que queremos, e se o slow food está mais próximo do cenário ideal do que o fast-food. As ações individuais e coletivas de mudança de consumo, portanto, têm o papel de criar novas perspectivas, traçar caminhos possíveis e inspirar mudanças.